O que a ciência sabe até o momento
Em 22 de setembro de 2025, o presidente estadunidense Donald Trump realizou um pronunciamento que tocou fogo no mundo do autismo (que não tem um dia de paz).
A declaração, que prometia trazer uma grande novidade, reacendeu uma velha polêmica: a suposta relação entre o uso de Paracetamol (Tylenol) na gravidez e o nascimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O problema é que essa ideia não é sustentada pelas pesquisas mais rigorosas disponíveis até o momento. Vamos aos fatos.
O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento em que as origens estão em fatores genéticos (64% a 91%) e ambientais (1% a 3%). Não existe um “único motivo”. A questão é que, de acordo com os dados mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC, 2024), a prevalência do TEA nos Estados Unidos tem mostrado um aumento constante nas últimas décadas. Em 2022, cerca de 1 em cada 31 crianças de 8 anos foi identificada com autismo — número superior ao registrado em 2020, quando a taxa era de 1 em 36.
Esse crescimento, apesar de chamar a atenção, não indica necessariamente um aumento real na incidência do autismo. De modo geral, os dados sugerem que o aumento observado está relacionado à maior conscientização social, ampliação dos critérios diagnósticos e melhoria no acesso aos serviços de saúde, mais do que a um aumento real no número de casos.
Mas… voltando ao Paracetamol. Alguns estudos observacionais sugeriram uma pequena correlação entre o uso do medicamento por gestantes e o aumento do risco de diagnóstico de TEA em seus filhos mas precisamos analisar esses estudos com mais atenção.

O que as pesquisas realmente mostram
Alguns estudos observacionais, como o liderado por Sergi Alemany et al. et al. (2021), encontraram uma associação estatística pequena entre o uso de paracetamol na gestação e sintomas de autismo ou TDAH. Por exemplo, filhos de mães que relataram uso de paracetamol durante a gravidez tinham cerca de 19% mais chance de apresentar traços leves de autismo e 21% mais chance de sintomas de TDAH. Mas é importante entender que essas análises mostram correlação, não causalidade.
Pesquisas mais amplas trouxeram resultados diferentes. Um estudo sueco com 2,48 milhões de crianças (1995–2019), mostrou que, quando se compara irmãos expostos e não expostos ao paracetamol, a associação desaparece. Isso significa que fatores genéticos e ambientais familiares, e não o medicamento em si, podem explicar as pequenas diferenças observadas em outros estudos.
Em 2025, um editorial publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders reforçou essa conclusão:
“As evidências epidemiológicas atuais não apoiam uma relação causal entre o uso de paracetamol na gravidez e o autismo.”
Ou seja, até o momento, não há prova científica de que o paracetamol cause autismo.
Correlação vs. Causalidade
Correlação
É quando duas variáveis se relacionam de alguma forma, mas essa relação não quer dizer que uma causa a outra.
Exemplo clássico:
Nos meses de verão, aumentam as vendas de sorvete e aumentam os casos de afogamento. Essas duas coisas estão correlacionadas (acontecem juntas), mas o sorvete não causa afogamento, o que causa o aumento dos dois é o calor (um terceiro fator, chamado variável de confusão).
No caso do paracetamol e autismo, a correlação significa apenas que mães que usaram mais paracetamol têm filhos que, em alguns estudos, apresentaram mais sintomas associados ao autismo. Mas isso não prova que o paracetamol causou o autismo, pode ser que o que causou a necessidade do remédio (como febre, dor ou infecção durante a gravidez) seja o verdadeiro fator relacionado.
Causalidade (causa e efeito)
É quando uma variável realmente provoca mudança na outra. Para afirmar isso, os cientistas precisam eliminar todas as outras explicações possíveis e mostrar que o efeito não ocorreria sem a causa.
Exemplo:
Sabemos que fumar causa câncer de pulmão, porque:
- há relação temporal (o câncer aparece depois do início do tabagismo),
- há mecanismos biológicos plausíveis (substâncias cancerígenas que danificam o DNA),
- há consistência entre muitos estudos diferentes,
- e há relação dose-resposta (quanto mais se fuma, maior o risco).
Esse conjunto de evidências permite dizer que existe causalidade, ou seja, o cigarro realmente causa câncer.
No caso do Paracetamol, a maioria das pesquisas falha em eliminar fatores de confusão, como infecções durante a gravidez, uso com outros medicamentos ou predisposições genéticas. Além disso, metanálises recentes revisaram esses estudos e concluíram que não há provas suficientes para afirmar que o medicamento cause autismo.
Segundo o National Institutes of Health (NIH) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), o paracetamol continua sendo um dos poucos medicamentos considerados seguros para aliviar dor e febre durante a gestação, quando usado conforme prescrição médica.
O que dizem as instituições de saúde
Órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), o Ministério da saúde do Brasil já se pronunciaram afirmando que Não há evidência conclusiva de que o uso de paracetamol durante a gravidez cause autismo. O medicamento continua sendo considerado seguro quando utilizado sob orientação médica.
Essas instituições destacam que o paracetamol é um dos poucos analgésicos seguros para gestantes e que a febre não tratada pode trazer riscos reais ao bebê. Ou seja, suspender o medicamento sem necessidade pode causar mais danos do que benefícios.
Conclusão
O paracetamol não causa autismo. Estudos que apontaram associação não provaram causa e têm limitações metodológicas. Instituições médicas internacionais mantêm o uso do paracetamol como seguro na gravidez, sob orientação médica. A disseminação de informações equivocadas pode causar medo, culpa e até levar pessoas a evitarem tratamentos seguros. O combate à desinformação é um passo fundamental para garantir que as discussões sobre o autismo sejam pautadas em ciência, empatia e responsabilidade, pois espalhar desinformação sobre o tema reforça estigmas desnecessários.

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