Lugar de autista é em todo lugar
Quando se fala em pessoas autistas, é comum surgir a imagem de alguém que não gosta de barulho, multidões e quebras de rotina. E, de fato, muitas pessoas autistas se identificam com essas características, mas é importante lembrar que o autismo é um espectro e que ninguém é igual a ninguém.
Algumas pessoas autistas, de tempos em tempos, ousam se aventurar, mesmo precisando de adaptações, cuidados e alguns dias para se recuperar depois, principalmente quando é para ouvir de perto aquela banda que toca horas e horas no fone de ouvido.
Após o anúncio de que AQUELA banda ou artista está vindo para um show único no Brasil. Após meses ponderando, em um momento de coragem desmedida, o ingresso foi comprado.
Meia entrada no Lolla para pessoa PCD e acompanhante
O processo de compra da meia-entrada para PCD foi relativamente simples. Após escolher o dia (optamos pela sexta-feira) e o tipo de ingresso, selecionei meia-entrada, preenchi os dados do meu filho, marquei a opção PCD e inseri as informações solicitadas.
O site perguntou se queríamos adicionar meia-entrada para acompanhante. Confirmamos, preenchi meus dados, escolhi a forma de pagamento e pronto: ingresso comprado.
Com a aproximação do evento, foi anunciado no site e nas redes sociais a necessidade de realizar um pré-cadastro para PCDs, por meio de um formulário, com envio de documentos de identificação e laudo médico. Dias depois, recebemos a confirmação por e-mail.
Deslocamento e entrada no evento
O transporte escolhido foi metrô/trem, tanto pela proximidade da estação com a hospedagem quanto pela experiência de explorar a rede da cidade — um sonho de infância do Lucas, que por muitos anos teve esse como hiperfoco (além da economia no deslocamento, rs).
A viagem foi relativamente tranquila, exceto pela linha esmeralda, que leva até a estação Autódromo, onde os vagões estavam bem cheios — mas nada assustador para quem pega ônibus voltando do trabalho diariamente.
Ao descer na estação, fomos recebidos por uma boa sinalização e muitas pessoas seguindo o mesmo caminho. Foi só acompanhar a multidão. Caminhamos muito, muito e mais um pouco (tipo “já chegou?” umas 5 vezes), mas encantados com a animação das pessoas e os lambe-lambes pelo caminho, parando para fotos sempre que possível.
Na entrada do evento — sim, tem mais de uma — havia uma área para ativação do ingresso e outra para revista. Existia entrada preferencial para PCD e não enfrentamos fila. Também houve empulseiramento para menores e maiores de 18 anos.
Ao avistar o evento de cima, com o castelo de cartas e toda a estrutura, é um mix de sentimentos: encanto, animação, entusiasmo… são muitas pessoas e muitas coisas acontecendo. Decidir por onde começar é um desafio.
Empulseiramento e kit sensorial
Próximo ao castelo de cartas, fica a área de acessibilidade. Lá ocorre o empulseiramento de pessoas PCD e seus acompanhantes. Ao está a sala sensorial, com isolamento acustico e profissionais para momentos de crise.
O evento também conta com área reservada para cães guia, tradução em libras e descrição audio-visual nos palcos.
Também é disponibilizado um kit sensorial com abafador, óculos escuros, fidget spinner e cartão de comunicação aumentativa, para quem precisa. Há ainda cadeiras de roda e manutenção gratuita, e outros recursos para pessoas com limitação de mobilidade.
Os itens são emprestados e devem ser devolvidos ao final do dia (preenchemos um termo de responsabilidade pelo uso).
Acesso à área PCD
Depois disso, nossa prioridade foi básica: água e comida. Afinal, caminhamos muito e o calor estava intenso.
Durante o evento, foi possível notar vários pontos com mapas e sinalizações indicando bebedouros, banheiros, áreas PCD e a programação dos palcos.
Eu estava ali para ver Deftones e meu filho queria ver Sabrina Carpenter. Como o show do Deftones era primeiro, fomos até o palco Samsung, uma área com vários morrinhos onde é fácil localizar a área reservada para PCDs.
Acessamos a área PCD do palco Samsung e tivemos uma ótima experiência: boa visibilidade tanto do palco Samsung quanto do Flying Fish. O espaço era mais elevado, possuía cadeiras e área para circulação de cadeirantes, além de banheiros químicos exclusivos e adaptados.
Chorei igual criança vendo Deftones tocar.
Após o show, seguimos para o palco principal, onde Sabrina Carpenter se apresentaria. Mas já era noite, e a maior parte do público estava concentrada ali.
Durante o dia, com menos movimento, as placas funcionam bem. À noite, com a multidão, encontrar a área PCD se torna praticamente impossível.
Tentamos bastante, mas não conseguimos localizar. As sinalizações não eram eficazes naquele contexto, e não havia indicação clara de entrada.
A área, ao que tudo indica, funciona como uma “ilha” elevada no meio do público, sem acesso separado. Ou seja, é necessário atravessar a multidão para chegar até ela — o que, nesse cenário, se torna extremamente difícil (imagina para um cadeirante).
Infelizmente, após uma ou duas músicas, desistimos do show.

Filas preferenciais
Eu e meu filho estávamos devidamente empulseirados (PCD e acompanhante), e ele utilizava o CIP TEA com cordão de identificação o tempo todo. Ainda assim, apesar das sinalizações indicando fila preferencial, isso não foi respeitado.
Principalmente nas ativações e pontos de venda, o direito à prioridade simplesmente não acontecia. Nos posicionávamos na frente e éramos ignorados, como se fôssemos invisíveis.
Cheguei a perguntar sobre a fila preferencial em uma ativação e fui informada de que deveríamos ir para o final da fila comum.
Diante disso, desistimos de praticamente todas as ativações.
A única exceção foi a roda-gigante, já na saída, quando a fila estava menor (porque todo mundo estava no palco principal). Enfrentamos cerca de 30 minutos de fila e, ao chegar nossa vez, ouvimos que não precisaríamos ter esperado, pois meu filho era prioridade (agora?).
Andamos na roda-gigante, tiramos fotos e vimos o final do show lá de cima. Gostaria de dizer que tudo terminou bem, mas a verdade é que meu filho ficou bastante frustrado por não ter conseguido assistir ao show da Sabrina Carpenter.
Voltando do evento
Sabíamos que a volta seria longa e caótica, principalmente com o cansaço acumulado (e meus pés me matando). Caminhamos com a multidão até a estação. Houve cerca de 10 minutos de “o que está acontecendo aqui?”, com liberação gradual do público. Depois disso, a viagem seguiu tranquila — inclusive nas conexões (por incrível que pareça, mais tranquila que a ida).
Meu filho foi sentado na cadeira preferencial, e eu fui em pé (repensando todas as minhas escolhas de vida e de calçado).
Por fim, chegamos à hospedagem sãos, salvos e exaustos.
Visão geral do evento
O Lollapalooza é um evento único e marcante. Meu filho e eu fomos apenas um dia, mas foi o suficiente para deixar saudades e já plantar a vontade de voltar. Foi um dia de muitas emoções: choramos, sorrimos, nos encantamos, descobrimos artistas novos e vimos de perto artistas que amamos (aqueles que a gente escuta no fone e nem acredita que está ali, ao vivo).
Em termos de acessibilidade, um evento desse porte tem suas limitações, e é possível perceber o esforço dos organizadores — o que merece reconhecimento.
Ainda assim, há pontos importantes a melhorar, como a sinalização (principalmente à noite), o acesso às áreas PCD proximo aos palcos e a orientação das equipes sobre o direito à fila preferencial.
Espero que esses pontos sejam repensados nas próximas edições, para que o Lollapalooza seja, cada vez mais, um espaço onde todos possam se divertir.

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