Porque falar é o primeiro passo para a prevenção
O mês de setembro inicia e com ele a campanha Setembro Amarelo. Nesse mês de mobilização, o tema fica em destaque nas redes sociais. Não é incomum encontrar posts de usuários com frases como: “se precisar conversar, fala comigo”, “deixo minha caixa de mensagens disponível”, “valorize a vida”… mas será que é o suficiente? Estamos realmente preparados para lidar com a complexidade do comportamento suicida, especialmente quando falamos de pessoas no espectro autista? Afinal de contas, o que é comportamento suicida?
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), comportamento suicida é parte da violência autoprovocada, que inclui ideação suicida, autoagressões, tentativa de suicídio e o suicídio consumado. Ao contrário do que se acredita, o suicídio não é algo isolado ou resultado de um único motivo e sim algo complexo, no qual fatores como histórico de transtorno mental, bullying, violência dentro ou fora da família, abuso sexual, uso de álcool e drogas, baixa autoestima e histórico de suicídio na família podem estar envolvidos.
Comportamentos como ideação suicida (ver o suicídio como saída para o sofrimento), autoagressão (sem intenção de morte), mudanças nos hábitos de sono e alimentação, isolamento social, abuso de substâncias, queda no rendimento escolar ou no trabalho e expressão de ideias de morte podem estar presentes antes de uma tentativa. Precisamos estar atentos aos sinais.
Estudos mostram que pessoas autistas têm três vezes mais chances de apresentar comportamento suicida em comparação com a população em geral. No Brasil, estima-se que cerca de 2,7 milhões de pessoas estejam no espectro do autismo, e isso torna a discussão urgente. O suicídio, de forma geral, já é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, e quando olhamos para a população autista, o risco é ainda mais preocupante.
Algumas características do autismo como a dificuldade em comunicar sentimentos, a sensação de não pertencimento, o isolamento social, a alexitimia (dificuldade em identificar e expressar emoções) e pensamentos negativos persistentes, exclusão, bullying e rupturas em relações de amizade podem intensificar o sofrimento emocional. Além de fatores de risco, como ansiedade frequente, depressão, dificuldades de adaptação às mudanças e sobrecarga sensorial.
Pesquisas recentes apontam também que profissionais de saúde ainda têm dificuldades em identificar sinais de risco em pessoas autistas, o que pode atrasar o apoio necessário.
Entre os sinais de alerta estão: falar ou escrever sobre morte, buscar meios de se machucar, expressar desesperança, se isolar de amigos e família, mudanças de humor, abuso de substâncias e queda no autocuidado. É importante analisar esses sinais, já que comportamentos como isolamento ou crises de raiva podem fazer parte do cotidiano do espectro. A atenção deve estar nas mudanças no padrão de comportamento da pessoa.

O cuidado deve ser individualizado e as alternativas incluem acompanhamento psicológico, psiquiátrico e atenção multiprofissional, como nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Para pessoas autistas, é fundamental um acolhimento que respeite sua forma de comunicar e perceber o mundo, além do fortalecimento da rede de apoio e intervenções adaptadas.
Um dos grandes mitos é que falar sobre suicídio aumenta o risco, quando na verdade, o silêncio é mais perigoso. Abrir espaço para o diálogo reduz o estigma, amplia o acolhimento e permite que sinais sejam identificados antes que se tornem mais graves. Falar sobre o tema ajuda a quebrar barreiras para que as pessoas autistas não fiquem invisíveis no debate sobre saúde mental.
Peça ajuda!
Se você ou alguém próximo está passando por momentos de sofrimento intenso, não hesite em pedir ajuda. Ninguém deve enfrentar isso sozinho.
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br. Esse serviço é um recurso fundamental para acolher quem precisa ser ouvido.
Setembro Amarelo no Espectro com Wilzacler Rosa
Referências:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Suicídio: informando para prevenir. 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico – Suicídio: saber, agir e prevenir. v.48, n.30, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2011.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.271, de 6 de junho de 2014. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.588, de 21 de dezembro de 2017. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2017.
BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1990.
MORGAN, Lisa et al. Prevenção do suicídio na população autista: sinais de risco e recursos para acolhimento. Tradução e adaptação cultural para o Brasil. Ribeirão Preto: Centro de Educação em Prevenção e Posvenção do Suicídio – CEPS, Universidade de São Paulo, 2022.
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria Estadual da Saúde. Centro Estadual de Vigilância em Saúde. Guia intersetorial de prevenção do comportamento suicida em crianças e adolescentes. Porto Alegre: SES-RS, 2019.WORLD HEALTH ORGANIZATION. Suicide in the world: global health estimates. Geneva: WHO, 2019.

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