Narrativas que conectam histórias e experiências
Nos últimos anos, Demon Slayer se tornou um dos animes mais assistidos e comentados, inclusive entre adolescentes e jovens adultos. Foi justamente através de pacientes que conheci essa obra – e, para minha surpresa, acabei me tornando fã. Além de seu visual impressionante e das batalhas emocionantes, Demon Slayer traz reflexões que podem dialogar com a psicologia. Nesse artigo compartilho os insights que o filme Castelo Infinito me trouxe*.
*Contém spoilers.
No dia 11 de setembro de 2025, estreou nos cinemas brasileiros o tão aguardado filme Castelo Infinito, que chegou causando verdadeiro alvoroço entre os fãs. De um lado, havia aqueles que se prepararam com antecedência, criando cosplays para viver a experiência completa; outros separaram suas camisetas temáticas para a sessão; e, claro, também estavam presentes os admiradores mais discretos, que foram apenas para prestigiar a produção na telona. O resultado não poderia ser diferente: salas de cinema lotadas em todo o Brasil – e também ao redor do mundo. Até a data de publicação deste artigo, o filme segue em cartaz.
Demon Slayer foi lançado em 2019 mas conheci o anime apenas no ano passado (2024), através de pacientes, adolescentes e jovens adultos e acabei gostando muito. Gostei a ponto de maratonar todas as temporadas disponíveis em poucos dias. Inesperadamente, eu que não tinha o hábito de assistir animes, me vi eufórica com o lançamento do filme (flertei com ideia de usar cosplay mas me contive e optei por usar uma camiseta temática).
Ao assistir ao filme, percebi que meu encanto ia além do entretenimento. Algumas cenas, em especial, despertaram reflexões profundas, quase como se o enredo dialogasse com alguns conceitos que costumo trabalhar com meus pacientes em psicologia clínica.
Atenção! Spoilers a partir daqui.
Entre as muitas cenas memoráveis de Demon Slayer: Castelo Infinito, a luta de Tanjiro e Tomioka contra Akaza é, sem dúvida, uma das mais marcantes. No coração do castelo, um espaço de formas distorcidas que intensifica o clima de tensão, Akaza retorna como ameaça implacável. Tanjiro, impulsionado pela lembrança de Rengoku, mostra uma determinação inabalável, enquanto Tomioka, com sua serenidade característica, traz técnica e estratégia ao confronto.

Nesse momento, é revelado que o Lua Superior Akaza possui um kekkijutsu que lhe permite identificar o “espírito de luta” do oponente. O embate é feroz, mas os caçadores não são mais os mesmos. Tomioka desperta a marca do caçador, contudo Akaza consegue nivelar. Já Tanjiro, através da dança de sua família, a Hinokami Kagura, acessa o chamado “mundo translúcido”, um estado de presença plena, no qual ele observa a luta sem ser dominado pela raiva ou pelo desejo de matar, mas apenas focando no agora e no objetivo, o que lhe permite neutralizar seu espírito de luta e assim se tornar indetectável ao inimigo.
Mesmo diante da derrota, Akaza resiste até o fim, mas ao reviver memórias de sua vida humana, e lembrar dos motivos que o levaram ao seu estado atual, encontra redenção e decide pôr um ponto final no combate, deixando a cena carregada de intensidade e melancolia.
Esses elementos narrativos têm um grande potencial para serem utilizados na psicoeducação sobre técnicas e conceitos psicológicos:
- Respiração consciente como autorregulação: os “Caçadores de Oni” utilizam técnicas de respiração como base para aprimorar suas habilidades durante o combate e esse conceito pode ser utilizado como metáfora para o ensino de respiração diafragmática, técnica muito utilizada para manejo de quadros de ansiedade, para manter foco, e lidar com emoções intensas.
- O mundo translúcido como estado de presença: no filme Tanjiro alcança um estado de consciência que o permite observar a luta de forma consciente, sem se deixar levar por ela, apenas com o foco no agora. Essa metáfora pode ser aplicada tanto em contextos de autoconhecimento quanto em práticas psicoterapêuticas para lidar com situações difíceis, sugerindo que a capacidade de estar plenamente no momento, pode ser decisiva para lidar com momentos de tensão.
- Histórias de dor e ressignificação: os personagens carregam passados sofridos, mas escolhem caminhos distintos. Alguns transformam a dor em sede de poder e dominação e acabam esquecendo de quem são, como Akaza; outros, como Tanjiro, em força para proteger os mais fracos. Isso ilustra que não é a dor em si que nos define, mas como a ressignificados.
Esses paralelos ganham ainda mais força quando trazemos para o trabalho clínico com clientes fãs do anime. Muitas pessoas podem ter dificuldade em expressar verbalmente suas emoções, porque falar de suas dores é, em si, doloroso. Nesses casos, é essencial que o psicólogo conheça os conteúdos de interesse do paciente – seja um anime, um filme, uma música ou um artista – não apenas para construir vínculo terapêutico, mas para que facilite a expressão de anseios, ideias e emoções de forma indireta.
No caso de Demon Slayer, que possui classificação indicativa de 18 anos, por abordar temas sensíveis e possuir cenas violentas, pode não ser indicado para pacientes sensíveis ou mais novos, mas pode ser utilizada terapeuticamente com quem já assiste. Assim, as narrativas dos personagens tornam-se metáforas para psicoeducar o paciente: a respiração como recurso de regulação emocional, a dor como algo que pode ser transformado em motivação construtiva, o estado de presença como alternativa para não se deixar arrastar por impulsos.
Esse processo cria uma linguagem compartilhada entre psicólogo e paciente, permitindo que temas difíceis sejam discutidos de maneira mais acessível, porém carregada de significado. O cliente pode se expressar através de personagens e situações, encontrando uma forma menos direta – e, portanto, menos ameaçadora – de falar sobre si mesmo e o psicólogo, por sua vez, pode utilizar as histórias presentes no anime para trazer informações, aplicar técnicas e facilitar uma nova visão sobre as experiências trazidas pelo paciente.
No fim, Demon Slayer mostra, de forma poética e intensa, que a vida é feita de lutas internas e externas, e que as ferramentas que usamos – respiração, foco, ressignificação da dor – podem nos tornar mais conscientes. O anime nos lembra que não basta sobreviver às batalhas: é preciso escolher o que fazer com aquilo que nos marcou.

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