A exaustão do profissional em ABA

Porque não existe cuidado de qualidade sustentado por profissionais esgotados

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma ciência que exige rigor, consistência e alta qualificação técnica. Mas, na prática cotidiana, existe uma realidade pouco discutida: a exaustão dos profissionais que sustentam esse trabalho — especialmente daqueles que estão na linha de frente.

Dentro da ABA, diferentes funções compõem o cuidado. O aplicador, muitas vezes estudante ou em início de carreira, atua diretamente na casa ou na escola do cliente. É ele quem acompanha a rotina real da criança, lidando não apenas com a aplicação dos programas, mas também com as dinâmicas familiares e escolares, que nem sempre são simples.

Apesar disso, ainda é comum que esse profissional seja confundido com babá ou cuidador. Uma confusão que não é inocente — ela revela o quanto esse trabalho, altamente técnico, ainda é desvalorizado.

O psicólogo, por sua vez, geralmente atua em contexto clínico, realizando atendimentos estruturados, avaliações, registros, elaboração de relatórios e devolutivas para as famílias. Em muitos casos, também assume funções técnicas mais amplas, como ajustes de intervenção e articulação com escola e equipe.

À primeira vista, pode parecer uma rotina mais organizada. Na prática, não é.

É comum que psicólogos atendam quatro ou mais pacientes por turno, ocupando integralmente manhãs e tardes com sessões sequenciais — e, muitas vezes, estendendo o trabalho para a noite na tentativa de complementar a renda.

Isso significa, na prática, jornadas com 10 ou mais atendimentos por dia, somando cerca de 50 a 55 horas semanais. E isso sem contar o tempo invisível: relatórios, estudo de casos, supervisão, planejamento e deslocamentos.

Não se trata apenas de quantidade.
Trata-se de intensidade.

O atendimento clínico exige presença ativa, raciocínio constante e manejo emocional contínuo. Ao longo de horas seguidas, com pausas quase inexistentes, o desgaste deixa de ser pontual — e passa a ser estrutural.

Essa sobrecarga não é exclusiva do psicólogo. Aplicadores frequentemente dividem o dia entre diferentes clientes, em locais distintos, conciliando deslocamentos, estudos ou múltiplos vínculos de trabalho. Já os psicólogos, muitas vezes, acumulam dois ou três empregos para garantir uma renda minimamente estável.

No Brasil, a ausência de regulamentação específica para o aplicador ABA agrava ainda mais esse cenário. Sem parâmetros claros, esse profissional frequentemente fica à mercê de altas exigências e baixa remuneração (já soube de contratantes que oferecem menos de 15 reais a hora de trabalho, se convertendo um um valor de menos de um salário mínimo por turno), para uma profissão que exige formação técnica e investimento físico, emocional e psicológico constante.

Mesmo no caso do psicólogo — uma profissão regulamentada — os desafios são significativos. Os custos com formação continuada são elevados: supervisão, cursos, especializações, congressos, livros. Soma-se a isso vínculos de trabalho frequentemente precarizados, como prestação de serviço ou contratação como pessoa jurídica, sem direitos como férias, folga remunerada ou estabilidade.

E, quando há vínculo formal, a realidade também não é animadora. Em cidades como Maceió, não é raro encontrar salários em torno de pouco mais de um salário mínimo — um valor incompatível com o nível de exigência técnica e emocional da atuação (dependendo, não cobre nem a mensalidade da pós em ABA).

Diante desse contexto, jornadas de 11, 12 ou até 13 horas por dia deixam de ser exceção e passam a ser regra. E o custo disso aparece — no corpo, na saúde e na vida fora do trabalho.

A exaustão não é falta de organização.
Não é falta de esforço.
É consequência de um modelo que exige muito e sustenta pouco.

Falar sobre isso não desmerece a ABA.
Pelo contrário — é o que permite que ela continue sendo praticada com ética, responsabilidade e qualidade.

Porque não existe cuidado de qualidade sustentado por profissionais esgotados.

Por isso, é urgente avançar para além do reconhecimento do problema e construir soluções estruturais. A regulamentação da atuação do aplicador ABA, com critérios mínimos de formação, condições de trabalho e remuneração, é um passo fundamental. Da mesma forma, é necessário fortalecer o debate sobre piso salarial e limites de carga horária para psicólogos, considerando a intensidade da prática clínica.

Embora já existam iniciativas nesse sentido, esses direitos ainda não estão consolidados em lei. Isso torna o cenário desafiador — mas também reforça a importância do movimento coletivo, do posicionamento profissional e da construção de práticas mais sustentáveis.

Para quem está chegando na área, é importante saber: a ABA é uma ciência potente, com impacto real na vida de muitas famílias. Mas ela também exige algo essencial — cuidado com quem a sustenta na prática.

Buscar formação de qualidade, escolher contextos éticos e, principalmente, respeitar os próprios limites não são sinais de fraqueza. São, na verdade, condições para uma atuação responsável.

Porque, no fim, sustentar a qualidade do cuidado também passa por sustentar a saúde de quem cuida.

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