Bets: Uma análise do comportamento de apostar

As apostas esportivas on-line, popularmente conhecidas como bets, cresceram de forma exponencial nos últimos anos. Patrocínios em campeonatos, publicidade massiva, influenciadores digitais e aplicativos cada vez mais acessíveis transformaram o ato de apostar em uma atividade presente no cotidiano de milhões de pessoas.

Embora muitas pessoas utilizem essas plataformas apenas como entretenimento, outras acabam desenvolvendo um padrão persistente de apostas, que se mantém mesmo diante de perdas financeiras, conflitos familiares e prejuízos significativos. Não raro, esse comportamento é atribuído à impulsividade, à falta de autocontrole ou mesmo à “fraqueza”. Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, porém, essas explicações são limitadas, pois deixam de considerar um aspecto fundamental: o comportamento humano é influenciado pelas contingências ambientais nas quais ocorre.

Desde meados do século XX, a Análise do Comportamento vem demonstrando que os comportamentos não surgem ao acaso, mas são selecionados por suas consequências. Em sua obra Science and Human Behavior, Skinner (1953) propôs que compreender um comportamento exige analisar as contingências que o antecedem e, principalmente, as consequências que contribuem para sua manutenção. Sob essa perspectiva, o comportamento de apostar pode ser compreendido como um operante selecionado ao longo da história de aprendizagem do indivíduo.

O comportamento de apostar é aprendido

Um dos princípios fundamentais da Análise do Comportamento é o reforçamento. Segundo Catania (2013), quando uma consequência aumenta a probabilidade de um comportamento voltar a ocorrer em condições semelhantes, dizemos que esse comportamento foi reforçado.

Nas bets, o ganho financeiro é o reforçador mais evidente, mas está longe de ser o único. A experiência de apostar envolve uma série de consequências potencialmente reforçadoras, como a expectativa pelo resultado, a emoção durante uma partida, a sensação de desafio, a interação social e até mesmo o reconhecimento associado aos ganhos compartilhados nas redes sociais.

Em outras palavras, não é apenas o dinheiro que mantém o comportamento. A própria experiência de apostar pode adquirir valor reforçador.

No entanto, para compreender por que algumas pessoas continuam apostando mesmo quando acumulam prejuízos, é preciso olhar também para o contexto em que esse comportamento ocorre.

Quando ganhar dinheiro parece valer ainda mais

A Análise do Comportamento utiliza o conceito de operações motivadoras para descrever condições que alteram temporariamente o valor de uma consequência e, consequentemente, influenciam a probabilidade de determinados comportamentos ocorrerem.

Situações como desemprego, dificuldades financeiras, endividamento ou o desejo de melhorar rapidamente de vida podem aumentar significativamente o valor reforçador de um possível ganho financeiro. Da mesma forma, histórias amplamente divulgadas sobre pessoas que enriqueceram com apostas podem aumentar a expectativa de sucesso, ainda que esses casos representem uma pequena parcela da realidade.

Em outras palavras, não é apenas o prêmio que importa. O contexto em que a pessoa se encontra altera o quanto aquele prêmio parece desejável.

As propagandas aumentam a probabilidade de apostas

Outro conceito central da Análise do Comportamento é o controle de estímulos.

Ao longo da história de aprendizagem, determinados estímulos passam a sinalizar que uma consequência reforçadora pode estar disponível. Esses estímulos recebem o nome de estímulos discriminativos (SD).

No universo das bets, propagandas durante partidas de futebol, notificações no celular, bônus de boas-vindas, promoções relâmpago, camisetas de clubes patrocinadas e relatos de grandes vencedores funcionam como estímulos que sinalizam oportunidades de reforçamento.

Para pessoas com uma história de apostas, esses estímulos aumentam a probabilidade de o comportamento ocorrer, pois já foram associados anteriormente à possibilidade de ganhos ou de outras consequências reforçadoras.

O verdadeiro segredo das bets está na imprevisibilidade

Se existe um conceito capaz de explicar por que as apostas são tão persistentes, ele é o dos esquemas de reforçamento.

Em Schedules of Reinforcement, Ferster e Skinner (1957) demonstraram que diferentes formas de distribuição do reforço produzem padrões distintos de comportamento. Entre elas, o esquema de razão variável produz respostas intensas e altamente persistentes.

Nas apostas, os ganhos não acontecem de forma regular. O apostador nunca sabe qual tentativa será recompensada. Essa imprevisibilidade faz com que cada nova aposta carregue a expectativa de ser “aquela que vai dar certo”.

Paradoxalmente, é justamente o fato de não saber quando o reforço ocorrerá que mantém o comportamento.

Esse princípio não é exclusivo das bets. Ele também está presente em máquinas caça-níqueis e em diversos jogos de azar estudados pela Psicologia Experimental há décadas.

Você sabia?

O esquema de razão variável também inspira mecanismos presentes em videogames, programas de fidelidade, aplicativos e redes sociais. Em todos esses casos, recompensas imprevisíveis tendem a aumentar o engajamento e a persistência do comportamento.

Perder nem sempre faz alguém parar

À primeira vista, pode parecer lógico imaginar que sucessivas perdas fariam qualquer pessoa abandonar as apostas. Entretanto, a ciência do comportamento mostra que essa relação é mais complexa.

Comportamentos mantidos por reforçamento intermitente apresentam elevada resistência à extinção. Em Análise do Comportamento, extinção refere-se ao procedimento em que um comportamento deixa de produzir as consequências que anteriormente o reforçavam. Com o tempo, espera-se que sua frequência diminua.

No entanto, quando o reforço sempre ocorreu de forma imprevisível, o organismo aprende que longos períodos sem recompensa fazem parte da própria contingência. Assim, perder repetidamente não significa, necessariamente, que o comportamento deixará de ocorrer.

É justamente essa característica que ajuda a compreender por que muitos apostadores continuam jogando mesmo após uma sequência de prejuízos.

Apostar também pode aliviar emoções desagradáveis

Nem todo comportamento de apostar é mantido pelo ganho financeiro.

Para algumas pessoas, apostar funciona como uma forma de escapar temporariamente da ansiedade, do estresse, da solidão ou do tédio. Durante alguns minutos, a atenção se volta completamente para o jogo, para as estatísticas e para a expectativa do resultado.

Quando esse processo reduz, ainda que momentaneamente, o contato com experiências aversivas, ocorre reforçamento negativo.

É importante destacar que reforçamento negativo não significa punição. Trata-se do fortalecimento de um comportamento porque ele remove ou reduz temporariamente um estímulo desagradável.

Esse alívio costuma ser passageiro. Em muitos casos, a ansiedade retorna pouco tempo depois, frequentemente intensificada pelas perdas acumuladas, favorecendo um novo ciclo de apostas.

A ilusão do controle e o comportamento supersticioso

Outro fenômeno frequentemente observado entre apostadores é o desenvolvimento de comportamentos supersticiosos.

Usar sempre a mesma camisa, apostar apenas em determinados horários ou escolher números considerados “da sorte” são exemplos comuns.

Skinner (1948) descreveu um fenômeno semelhante em seu clássico experimento sobre comportamento supersticioso. Nesse estudo, pombos recebiam alimento em intervalos regulares, independentemente do que estivessem fazendo. Ainda assim, passaram a repetir comportamentos que coincidiam temporalmente com a chegada do alimento, como girar ou mover a cabeça, como se essas respostas fossem responsáveis pela consequência.

Embora o comportamento humano seja muito mais complexo, o princípio continua atual: quando uma resposta é seguida, por coincidência, por uma consequência reforçadora, podemos passar a agir como se aquela resposta tivesse causado o resultado.

O papel das regras

Nem todo comportamento é moldado apenas pelas consequências diretas. Muitas vezes, ele também é influenciado por regras transmitidas socialmente.

Expressões como “quem entende de futebol ganha dinheiro”, “é só recuperar o prejuízo na próxima aposta” ou “quem estuda as estatísticas sempre leva vantagem” podem funcionar como estímulos verbais que influenciam o comportamento antes mesmo que a pessoa entre em contato com as consequências reais das apostas.

Quando essas regras são ocasionalmente confirmadas por algum ganho, seu controle sobre o comportamento tende a se fortalecer.

Consequências imediatas costumam falar mais alto

Ao decidir apostar, a pessoa entra em contato com consequências que ocorrem em momentos diferentes.

A emoção, o entretenimento, a expectativa e a possibilidade de ganho são consequências imediatas. Já os prejuízos financeiros, os conflitos familiares e o sofrimento psicológico costumam aparecer de forma gradual.

Diversas pesquisas sobre desconto do atraso (delay discounting) mostram que consequências imediatas geralmente exercem maior controle sobre o comportamento do que consequências distantes no tempo. Isso ajuda a compreender por que alertas sobre perdas futuras nem sempre são suficientes para reduzir o comportamento de apostar.

O comportamento não ocorre no vazio

Reconhecer a influência das contingências ambientais não significa negar a responsabilidade individual. Significa compreender que todo comportamento ocorre em um contexto.

As plataformas de apostas utilizam recursos cuidadosamente planejados para aumentar o engajamento do usuário: notificações frequentes, bônus, recompensas imediatas, efeitos sonoros, feedback visual, promoções por tempo limitado e publicidade constante.

Sob a ótica da Análise do Comportamento, esses elementos não são meros detalhes de design. Eles fazem parte das contingências que aumentam a probabilidade de permanência do comportamento.

Como descreve Natasha Dow Schüll (2012), ao analisar a indústria dos cassinos, esses sistemas são cuidadosamente projetados para prolongar o tempo de jogo e manter o usuário engajado. Embora as apostas esportivas possuam características próprias, diversos princípios comportamentais empregados nessas plataformas são semelhantes aos observados em outros jogos de azar.

Considerações finais

Os princípios discutidos neste texto não foram descobertos com o surgimento das bets. Eles fazem parte de um corpo consistente de conhecimento produzido ao longo de décadas pela Análise Experimental do Comportamento.

Conceitos como reforçamento, operações motivadoras, controle de estímulos, esquemas de reforçamento, resistência à extinção, reforçamento negativo e comportamento governado por regras ajudam a compreender por que apostar pode tornar-se um comportamento altamente persistente, mesmo diante de consequências negativas evidentes.

Mais do que atribuir o problema à “falta de força de vontade”, compreender as contingências envolvidas amplia nossa capacidade de pensar em estratégias de prevenção, políticas públicas e intervenções clínicas baseadas em evidências.

Em um cenário em que as bets ocupam cada vez mais espaço na sociedade, compreender a ciência por trás desse comportamento é um passo importante para promover decisões mais conscientes e um debate público menos moralizante e mais fundamentado no conhecimento científico.

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